terça-feira, 3 de maio de 2016

Imaginação e Meias Verdades

  • Cenário Um: Irará, maio de 1949, às 10 horas da manhã. Manoel Pereira da Paixão, chapéu de baeta na cabeça, sobe a Rua de Baixo. Adentra à Praça e caminha firme em direção à venda de Nazi, onde comprará um facão, uma pá e dois quilos de carne-do-sertão.

  • Cenário Dois: Oitiseiro em frente ao armazém de Alfredo Franco. Na sombra da grande árvore, duas pedras de bom tamanho. Servindo-se dos banquinhos rochosos, dois fortes moços – carregadores -, aguardando o que fazer, charutos caseiros nos bicos.

- Lá vai seu Manezinho do Alambique. Tá andano ligero, o home.
- Quem é, Jão? Num cunheço nium Manezinho.
- Aquele lá, Pedo, soci no alambique de seu Palo Campo. Ele é irmão de seu Bertino do Lambe-Lambe.
- Bertino pai de Dadin, qui trabaia na venda de seu Cesaro dos bago grande?
- Esse mermo
- E esse Manezinho é daqui?
- Home, é de Conceição, fio de seu Maroto mais Dona Pomba. Todo mundo pr’essas banda cunhece ele, Jão.
-E ele mora aqui na Rua?
- Não, ele mora de alugué no sítio de seu Antoninho, ali nas borda da ladeira do Retiro.
- Ah, Pedo, já sê quem é. Ele tem um caminhão, cum aquele chofé qui os povo chama de Edgá Viado.
- E é?Aquele Edgá barbicha é viado?
- Dus bom. Pregunte pra Guilerme.
- Esse seu Manezinho é gente boa?
- Dos mió. Morô uns tempo nu Jiquié mas vortô pra cá. Festero qui só ele, noivô de Dona Maria Danta, aquela qui trabaia cus prefeito. As dispois, saiu dela e se arrumô de noivo cum uma fia de seu Tiago Varverde, Dona Piquena. Casô cum ela. Fez um bom negoço.
- E eles tem fii?
- Tem dois fii home i duas fia muié, mas Dona Piquena tá barriguda de novo.
- Como tu sabe?
- Eu vi ela, nu sabo, na fera, cum a empregada deles, uma tá de Mariquinha, neguinha muntxo garbosa.
- Home, tu sabe de tudo.

- Pois é, Jão. Seu Manezinho é amigo dus home: cumpade de seu Maro Campo, soci de seu Palo Campo, e assim-assim com Seu Piroca Brejão. Vai terminá sendo mandão aqui nos Irará.

domingo, 1 de maio de 2016

O sagrado e o profano


Beira Mar. Noites de julho. Os acordes estridentes das guitarras, sob o compasso monocórdico dos tambores, fazem encher a avenida. Marionetes verdes, azuis, amarelas e brancas – até vermelhas – saracoteiam como que endemoninhadas, num ritmo que tanto  pode ser caribenho ou indígena, cearense ou baiano. Movidos como molas controladas por sinais siderais, os braços se erguem, as pernas se curvam, os olhos se dilatam e as  gargantas rugem, num simulacro de canto e grito. É o Fortal que chega, passa e se repete.

Parque do Cocó. Noites de julho. Outros acordes de outras guitarras e tambores  agitam a praça. Sob o comando dos locutores, a massa repete o refrão. As marionetes daqui não têm cores – somente rostos. Rostos famintos, descorados, sulcados até, esperam um milagre que jamais chega. O comando estabelece as regras. Vamos visitar as barracas, coloquem sua contribuição na cestinha, inscrevam-se no concurso de sacolas. Eventualmente, o comando rege: God  Is Love. Façam sexo somente pela metade. É o  Halleluya  que anuncia o Dia do Juízo Final e chega, passa e se repete.

De um lado, temos o negócio dos abadás, das lantejoulas, das mamãe-eu-quero. Do outro, mercantilizam-se indugências, alugam-se vagas no céu, prometem-se ilusões.
Tudo pode ser adquirido à vista ou em suaves prestações. O sagrado e o profano seguem as mesmas regras para alcançar objetivos similares.

Onde se encontra o Poder Público, guardião do patrimônio de todos? Como se permite que o sossego dos cidadãos contribuintes seja agredido dessa forma? O direito de ir e vir é cerceado em nome da festança e da bagunça. No dia seguinte, o lixo que enfeia a avenida é o mesmo que se espalha pelo parque. Sujeira não tem cor nem bandeira e  tanto é profana quanto é sagrada. Da farra e da oração restam as chagas.

Os césares romanos mandavam dar ao povo pão e circo, a fim de evitar a rebelião. Hoje, o que vemos é excesso de circo e falta de pão.  Aqui e alhures.

Certamente, o muito circo e o pouco pão estão fermentando uma enorme batalha social.


Juracy de Oliveira Paixão (advogado)
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Fone 458.1560           Fax 458.1564

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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Deixando a falsa modéstia de lado, publico carta que minha irmã Jandira me enviou e divulgou para seu grupo de amigas:

"Querido irmão,

            Agora, quando o início da ditadura militar, em nosso país, completa 50 anos, recordo-me de fatos da época.

            A nossa pequena cidade fervilhava. Eram tantos os esquerdistas, os comunistas, que o exército se fez presente. Autoridades demitidas, outros fogem para o campo, pessoas detidas para interrogatórios.  Lembras do escudo do nosso colégio? As armas de São Judas Tadeu: foice e machado. A professora Lourdes teve que dar explicações. Papai que era suplente de delegado ocupa o cargo, para desespero de mamãe, que já vivia preocupada contigo. Tu partes, deixando tua família, três filhos, mais um para chegar. E chega lindo, recebendo um nome russo: Wladimir. Não lembro quanto tempo demoraste fora do país, mas imagino que a saudade devia ser grande e dificuldades certamente existiram. Porém guerreiro como sempre fostes, soubeste aproveitar este tempo para crescer e estudar. Até chegaste a poliglota!

            Cinqüenta anos depois, a tua, a nossa realidade modificou-se. Já criamos filhos, exercemos atividades profissionais. Tu escreveste um livro e, hoje, somos do time dos aposentados. Mas, certamente, ainda atuantes na vida.

            Que continues a sonhar, a protestar, a escrever, a ser quem tu és: um forte!

Abraços de tua mana Jandira


Salvador, maio, 2014."