O sagrado e o profano
Beira Mar. Noites de julho. Os acordes estridentes das
guitarras, sob o compasso monocórdico dos tambores, fazem encher a avenida.
Marionetes verdes, azuis, amarelas e brancas – até vermelhas – saracoteiam como
que endemoninhadas, num ritmo que tanto
pode ser caribenho ou indígena, cearense ou baiano. Movidos como molas
controladas por sinais siderais, os braços se erguem, as pernas se curvam, os
olhos se dilatam e as gargantas rugem,
num simulacro de canto e grito. É o Fortal que chega, passa e se repete.
Parque do Cocó. Noites de julho. Outros acordes de outras
guitarras e tambores agitam a praça. Sob
o comando dos locutores, a massa repete o refrão. As marionetes daqui não têm
cores – somente rostos. Rostos famintos, descorados, sulcados até, esperam um
milagre que jamais chega. O comando estabelece as regras. Vamos visitar as barracas, coloquem
sua contribuição na cestinha, inscrevam-se
no concurso de sacolas. Eventualmente, o comando rege: God Is Love. Façam sexo somente pela metade. É o Halleluya que anuncia o Dia do Juízo Final e chega,
passa e se repete.
De um lado, temos o negócio dos abadás, das lantejoulas,
das mamãe-eu-quero. Do outro,
mercantilizam-se indugências, alugam-se vagas no céu, prometem-se ilusões.
Tudo pode ser adquirido à vista ou em suaves prestações. O
sagrado e o profano seguem as mesmas regras para alcançar objetivos similares.
Onde se encontra o Poder Público, guardião do patrimônio de
todos? Como se permite que o sossego dos cidadãos contribuintes seja agredido
dessa forma? O direito de ir e vir é cerceado em nome da festança e da bagunça.
No dia seguinte, o lixo que enfeia a avenida é o mesmo que se espalha pelo
parque. Sujeira não tem cor nem bandeira e
tanto é profana quanto é sagrada. Da farra e da oração restam as chagas.
Os césares romanos mandavam dar ao povo pão e circo, a fim de
evitar a rebelião. Hoje, o que vemos é excesso de circo e falta de pão. Aqui e alhures.
Certamente, o muito circo e o pouco pão estão fermentando
uma enorme batalha social.
Juracy de Oliveira Paixão (advogado)
Rua Carolina Sucupira, 1985, apto. 2103
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