Tenho saudades
Poema em prosa
Tenho saudades do
meu Irará
Da praça em barro
batido,
Onde a enxurrada
formava riachos
E aguçava a imaginação
De menino.
Tenho saudades, no
meu Irará,
Do pé de sabonete e do Lasca-Gato
E dos caminhos do Cajueiro.
Por onde andei
noites e noites
Quando rapaz
Tenho saudades da
Salvador da Bahia,
Da Baixa dos Sapateiros
E dos cortiços do Pelourinho,
Onde me acoitei
Quando estudante
Tenho saudades, na
velha Salvador,
Da Vila Paulista, no Corta-Braço...
Da Mouraria, da Lapinha e do Tabaris,
Onde gastava o que
não tinha
Quando perdido.
Tenho saudades da
Moscou, vermelha,
por onde vaguei em
tantos invernos.
Moscou dos bosques
e berioskas,
Da Rua Tamanskaia, onde me alojei
Quando achado.
Tenho saudades, na
vermelha Moscou,
Das aulas onde
saciei a sede de dialética;
Das bibliotecas e
museus mil,
Onde encontrei a
lógica e o raciocínio
Quando consciente.
Tenho saudades da
Fortaleza minha,
Das ventanias que
trazem, no sopro,
O calor da calma;
Do abster-me,
calar-me, consentir,
Onde sou
Dessa Fortaleza
que amo
Porque sou amado,
eu.
Desse “arre égua” que soa como verso
Não de Camões, mas
do Patativa,
Onde me
reencontro.
Tenho saudades de
mim;
Dos cigarros columbia que conduzia
E não fumei;
Dos discursos que
escrevi
Mas não fiz;
Dos panfletos que
mimeografei
E distribuí;
Das críticas e
autocríticas;
Das pichações, dos
pontos, dos aparelhos
Onde fiquei
Tenho saudades de
tudo,
Mas não sei se
devo manter
Essa saudade que
cresce
E me estimula,
Ou tratar de
mitigá-la
Esvaziando-me...
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