terça-feira, 3 de maio de 2016

Tenho saudades


Poema em prosa



Tenho saudades do meu Irará
Da praça em barro batido,
Onde a enxurrada formava riachos
E aguçava a imaginação
De menino.

Tenho saudades, no meu Irará,
Do pé de sabonete e do Lasca-Gato
E dos caminhos do Cajueiro.
Por onde andei noites e noites
Quando rapaz

Tenho saudades da Salvador da Bahia,
Da Baixa dos Sapateiros
E dos cortiços do Pelourinho,
Onde me acoitei
Quando estudante

Tenho saudades, na velha Salvador,
Da Vila Paulista, no Corta-Braço...
Da Mouraria, da Lapinha e do Tabaris,
Onde gastava o que não tinha
Quando perdido.

Tenho saudades da Moscou, vermelha,
por onde vaguei em tantos invernos.
Moscou dos bosques e berioskas,
Da Rua Tamanskaia, onde me alojei
Quando achado.

Tenho saudades, na vermelha Moscou,
Das aulas onde saciei a sede de dialética;
Das bibliotecas e museus mil,
Onde encontrei a lógica e o raciocínio
Quando consciente.

Tenho saudades da Fortaleza minha,
Das ventanias que trazem, no sopro,
O calor da calma;
Do abster-me, calar-me, consentir,
Onde sou

Dessa Fortaleza que amo
Porque sou amado, eu.
Desse “arre égua” que soa como verso
Não de Camões, mas do Patativa,
Onde me reencontro.

Tenho saudades de mim;
Dos cigarros columbia que conduzia
E não fumei;
Dos discursos que escrevi
Mas não fiz;

Dos panfletos que mimeografei
E distribuí;
Das críticas e autocríticas;
Das pichações, dos pontos, dos aparelhos
Onde fiquei

Tenho saudades de tudo,
Mas não sei se devo manter
Essa saudade que cresce
E me estimula,
Ou tratar de mitigá-la

Esvaziando-me...

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