sábado, 7 de maio de 2016

As Mazelas do Parentesco por Afinidade


“Ilmo. Sr. Delegado de Polícia,

Não culpe ninguém pela minha morte. Deixei essa vida porque, um dia mais que eu tivesse, acabaria morrendo louco. Explico-lhe Sr. Delegado: Tive a desdita de casar-me com uma viúva, a qual tinha uma filha. Se eu soubesse disso, jamais teria me casado.

         Meu pai, para maior desgraça, era viúvo, e quis a fatalidade que ele enamorasse e casasse com a filha de minha mulher. Resultou daí que minha mulher tornou-se sogra do meu pai. Minha enteada ficou sendo minha mãe, e meu pai era, ao mesmo tempo, meu genro. Após algum tempo, minha enteada trouxe ao mundo um menino, que veio a ser meu irmão, porém neto de minha mulher, de maneira que fiquei sendo avô de meu irmão. Com o decorrer do tempo, minha mulher também deu à luz um menino que, como irmão de minha mãe, era cunhado de meu pai e tio de seu filho, passando minha mulher a ser nora de sua própria filha.

Eu, Sr. Delegado, fiquei sendo pai de minha mãe, tornando-me irmão de meu pai e de meu filho, e minha mulher ficou sendo minha avó, já que é mãe de minha mãe. Assim, acabei sendo avô de mim mesmo.


Portanto, Sr. Delegado, antes que a coisa complique mais ainda quando meu filho se casar, resolvi desertar desse mundo.

Perdão, Sr. Delegado.”



Extraído da antiga revista “O Cruzeiro”

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